Este título não é click bait, prometo.
Ou talvez seja um pouco, mas fique comigo, prometo que vai fazer sentido.
Bad Bunny é o artista do momento. Deu o half time show do super bowl, ganhou 3 grammys em 2026, incluindo o de melhor álbum, e foi o artista mais ouvido do Spotify de 2025.
O sucesso dele é estrondoso, mas também é, a muitos níveis surpreendente. Ele é um artista de reggaeton, canta exclusivamente em espanhol e boa parte da suas música são sobre a vida e identidade de Porto Rico. Nunca suavizou o sotaque, nunca trocou o espanhol pelo inglês, nunca apagou Puerto Rico para chegar a mais gente.
Fez exactamente o oposto.
Os seus álbuns estão pejados de referências a Porto Rico, ao seu modo de vida, cultura, musica, comida até. O último, Debi Tirar Mas Fotos é uma declaração de amor à ilha, à diáspora porto-riquenha e à alma latina mas é, ao mesmo tempo, um ato político, uma critica à gentrificação e à gestão americana da ilha.
Foi este álbum, o mais específico de todos, e em particular o espetáculo no Super Bowl que o tornou o maior astro do planeta.
Porque é que um trabalho tão específico o tornou tão famoso?
Autenticidade.
A autenticidade das músicas de DTMF ressoa com toda a gente que alguma vez amou um lugar. Não precisamos de conhecer Puerto Rico para nos emocionarmos com “Lo Que Pasó a Hawaii”. Todos nos identificamos com a perda de identidade e todos os outros problemas causados pela gentrificação das cidades. É essa identificação que cria a ligação à musica dele.
O que isto tem a ver com crianças e natureza?
Tudo.
Pense na forma como falamos de natureza com crianças. Tendemos para o grande, o urgente, o universal: o planeta; os oceanos; as espécies em extinção, a floresta amazónica. São temas importantes. Mas nenhum deles pertence à criança que está à nossa frente.
Ela não cresceu perto do Amazonas. A sua relação com a natureza não começa aí. Começa naquele carvalho no recreio. Naquela pinha que trouxe para casa. Naquela pedra coberta de musgo onde brinca às casinhas. No lugar que é dela.
Quando falamos de natureza como algo genérico e distante, estamos a fazer o contrário do Bad Bunny, estamos a retirar o lugar, a retirar a identidade, a retirar a ligação.
E sem ligação, não há cuidado. Há, quando muito, culpa.
As pessoas não protegem abstrações. Protegem o que sentem como seu.
Há muito tempo que sabemos isto, na verdade. Vejamos duas das maiores referências da educação ambiental no século XX: Jane Goodall e Rachel Carson.
Jane foi para a Tanzânia estudar chimpanzés e fez algo que escandalizou a ciência: deu-lhes nomes. Flo. David Greybeard. Goliath. Os seus colegas disseram que estava a comprometer a objetividade.
Ela continuou, e o mundo apaixonou-se. Por eles, e pelo que eles significavam. Porque quando algo tem nome, torna-se alguém. E é muito mais difícil deixar morrer alguém do que algo.
Goodall percebeu que a ligação emocional à Natureza muda tudo.
Não estudou os chimpanzés em geral. Estudou aqueles, com aquelas histórias, naquele lugar.
Rachel Carson, em The Sense of Wonder, conta como acordava o sobrinho Roger a meio da noite para ver a maré subir. Ficavam em silêncio na praia às 3 da manhã. Sem fichas, sem objetivos. Só espanto partilhado. E escreveu:
Se os factos são as sementes que mais tarde produzem conhecimento e sabedoria, então as emoções e as impressões dos sentidos são o solo fértil em que essas sementes devem crescer.
Esse menino nunca mais foi indiferente ao oceano. Não porque lhe ensinaram que os oceanos estão em perigo, mas porque o oceano se tornou seu.
Bad Bunny, Goodall, Carson. Tão diferentes, o mesmo segredo: criar conexão, sentimento de pertença. O resto vem por consequência.
O recreio de uma escola tem mais poder pedagógico do que a Amazónia.
Não porque seja mais importante, mas porque pode ser deles. Porque a criança pode voltar amanhã e verificar se a lesma está no mesmo sítio. Porque passa todos os dias pelo mesmo carvalho, abriga-se debaixo da sua copa no verão, usa as suas folhas caídas no outono para fazer comidinhas, joga às escondidinhas atrás do seu tronco…
Se esse carvalho, de repente, desaparecer a criança vai notar, vai sentir a sua falta, compreender o seu valor. Porque é dela.
Isto é, no fundo, o que o Bad Bunny faz: levar o local para o centro da conversa. Tratar o lugar onde estamos como suficientemente rico, suficientemente belo, suficientemente digno de ser conhecido e amado.
Porque é.
E quando uma criança aprende a ver o que está mesmo ali, aquela folha, aquele inseto, aquela textura de casca, desenvolve pertença. E a pertença é o único caminho para o cuidado verdadeiro.